02/02/2026

0 Arte poética - Vitorino Nemésio





A poesia do abstracto?
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento.
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia
Vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde,
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia.
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
são propriamente poesia.
Poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.


Vitorino Nemésio





30/01/2026

1 Uma Vida Cantada me Rodeia - Cecília Meireles





Uma vida cantada me rodeia.
Mas pergunto-me até onde me alcança
o canto que me envolve e me protege.

Qual será o meu destino verdadeiro?
De onde vem essa morte? e que sentido
tem o desejo de suster a vida?

E que vida oferece a voz que canta?
Por que roubar à sorte do silêncio
o náufrago, entre mil, que em nós levamos?

Casualidade humana obscura e incerta...
quem fomos? quem seríamos? quem somos
se o canto nos envolve e rasga o tempo

e - em que hora isenta? - nos deixa a salvo.


Cecília Meireles
In Solombra



24/01/2026

10 Canção das Aves - António Correia de Oliveira





 Benditos sejam os ramos
De generosa beleza
Nossa casa e nossa mesa,
E dos filhos que criamos.

De manhã, mal acordamos.
Louvamos a natureza;
Em cantos também se reza:
Eis porque tanto cantamos!

Vamos, depois, campos fora,
Chamando a fonte que chora
Refrescando a luz em brasa

Mas nada igual à alegria
De voltar, ao fim do dia,
Ao seio da nossa casa!


António Correia de Oliveira



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